Abelardo Zaluar foi um dos nomes mais singulares da abstração geométrica brasileira. Pintor, desenhista, gravador e professor, desenvolveu uma linguagem independente, unindo o rigor construtivo à sensualidade das curvas, da cor e das formas inspiradas no barroco brasileiro
Abelardo Zaluar nasceu em Niterói, Rio de Janeiro, em 21 de março de 1924. Entre 1944 e 1948, frequentou a Escola Nacional de Belas Artes — Enba, no Rio de Janeiro, em um período de gradual renovação do ensino artístico brasileiro.
Ainda jovem, participou da criação da Escolinha de Arte do Brasil, tornando-se seu sócio-fundador e diretor-técnico. A instituição, criada no final da década de 1940, teve papel importante na renovação do ensino da arte no país.
Sua primeira produção foi marcada por aquarelas e desenhos figurativos. Entre meados das décadas de 1950 e 1960, entretanto, Zaluar iniciou um processo de simplificação e geometrização das figuras, caminhando progressivamente para a abstração. Em 1959, recebeu o primeiro prêmio em desenho no Prêmio Leirner de Arte Contemporânea, promovido pela Galeria de Arte das Folhas, em São Paulo.
Em 1963, conquistou o Prêmio de Viagem ao Exterior do Salão Nacional de Arte Moderna. No ano seguinte, seguiu para a Europa, onde permaneceu por aproximadamente dois anos. Nesse período, dedicou-se especialmente ao desenho, aproximou-se de experiências ligadas ao tachismo e expôs em cidades como Lisboa e Roma.
Após retornar ao Brasil, passou a desenvolver uma obra construtiva cada vez mais pessoal. Suas visitas às cidades históricas de Minas Gerais despertaram um interesse particular pela arquitetura e pela ornamentação barrocas. Curvas, perfis, arabescos e ritmos espaciais foram incorporados a suas estruturas geométricas, produzindo uma combinação original entre ordem e sensualidade, cálculo e improvisação.
Zaluar também teve atuação relevante como professor. Lecionou na Escola Nacional de Belas Artes entre 1958 e 1968, quando foi afastado de seu cargo durante a ditadura militar. A partir de então, passou a receber alunos em seu ateliê, contribuindo para a formação de uma geração de artistas. Reintegrado posteriormente à instituição, recebeu, na década de 1980, o título de professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro — UFRJ.
Ao longo da carreira, integrou bienais, salões e importantes exposições nacionais e internacionais. Faleceu no Rio de Janeiro, em dezembro de 1987, deixando uma produção cuja independência em relação aos grupos concretos e neoconcretos contribuiu tanto para sua singularidade quanto para seu posterior afastamento das principais narrativas sobre a abstração brasileira.
Para colecionadores e profissionais do mercado, Abelardo Zaluar reúne atributos importantes: currículo institucional consistente, linguagem reconhecível, presença em importantes coleções e uma produção abstrato-geométrica singular.
Suas obras aparecem no mercado de arte, especialmente pinturas e trabalhos que combinam vinil, acrílica, grafite e colagem sobre madeira, tela ou eucatex. São particularmente representativos os trabalhos das décadas de 1970 e 1980, nos quais se destacam a sobreposição dos planos, o falso relevo, as curvas de inspiração barroca e o uso mais intenso da cor.
A realização de exposições de revisão, como Abelardo Zaluar: rigor e emoção, em 2022, e a mostra promovida pela Galeria de Arte Ipanema em 2025, evidencia um processo recente de redescoberta e reposicionamento de sua obra. Essa retomada institucional e crítica pode ampliar sua visibilidade junto a novos colecionadores, embora sua produção ainda não possua a mesma circulação comercial dos principais integrantes dos movimentos concreto e neoconcreto.
A produção de Abelardo Zaluar teve início no campo figurativo, especialmente por meio da aquarela e do desenho. Entre 1954 e 1960, suas figuras passaram por um processo gradual de simplificação e geometrização, até que o artista alcançasse uma linguagem predominantemente abstrata.
Apesar de sua proximidade com questões construtivas, Zaluar não se filiou formalmente aos movimentos concreto ou neoconcreto. Criou uma geometria própria, menos rígida e mais sensível, estruturada pelo equilíbrio entre linha, plano, volume e cor. Essa independência tornou sua obra difícil de enquadrar nas classificações mais tradicionais da arte brasileira.
A linha permaneceu como um elemento essencial ao longo de toda a sua trajetória. Mesmo quando o grafite ou o desenho deixavam de aparecer explicitamente, reapareciam na articulação entre os planos, nas divisões cromáticas, nos frisos e nas barras que organizavam a composição.
Após sua permanência na Europa e o retorno ao Brasil, Zaluar passou a investigar de maneira mais intensa a relação entre a abstração geométrica e o barroco mineiro. Apropriou-se de fotografias de monumentos, igrejas, chafarizes e esculturas das cidades coloniais, sobre as quais realizava intervenções geométricas. O mesmo recurso foi aplicado a paisagens, nus e reproduções de obras da história da arte.
Na década de 1970, incorporou a colagem e o trompe-l’œil a sua pintura. Por meio de sombreados, sobreposições e recortes, criava falsos relevos e efeitos de tridimensionalidade. Os planos pareciam dobrar-se, deslocar-se ou projetar-se para fora da superfície.
Sua produção apresenta uma grande diversidade de materiais, entre eles aquarela, óleo, tinta acrílica, vinil, grafite, giz de cera, papel, cartão e colagem. Nas obras mais tardias, a cor ganhou maior presença, acompanhada por uma construção mais livre e luminosa.
Sua obra integra acervos institucionais como o Museu Nacional de Belas Artes — MNBA, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro — MAM Rio, o Museu de Arte Moderna de São Paulo — MAM São Paulo, o Museu de Arte Contemporânea de Niterói — MAC Niterói e o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand — MASP.
Abelardo Zaluar participou de diversas edições da Bienal Internacional de São Paulo: