Artur Barrio

1945

Artur Barrio (Porto, Portugal, 1945) é uma das figuras mais radicais e influentes da arte conceitual, da performance e da Body Art na América Latina e no cenário internacional. Radicado no Brasil a partir de meados da década de 1950, Barrio revolucionou a linguagem artística ao romper criticamente com os suportes e espaços tradicionais de exposição, utilizando materiais perecíveis e orgânicos — como lixo, ossos, carne, sangue e dejetos — para criar "Situações" e "Trouxas Ensanguentadas" que denunciavam o clima de violência e repressão da ditadura militar brasileira. Laureado com o prestigiado Prêmio Velázquez de Artes Plásticas em 2011 e representante do Pavilhão do Brasil na 54ª Bienal de Veneza, sua vasta trajetória contesta o elitismo do mercado de arte por meio da estética do efémero, do precário e da vivência corporal do espaço urbano.

Nascimento e Formação

Artur Alípio Barrio de Sousa Campos nasceu na cidade do Porto, Portugal, em 1945. Devido a perseguições políticas sofridas por sua família pelo regime Salazarista, emigrou com os pais inicialmente para Angola e, em 1955, fixou residência no Rio de Janeiro. No início da década de 1960, iniciou sua aproximação com as artes visuais. Entre 1967 e 1969, ingressou na Escola Nacional de Belas Artes (ENBA) no Rio de Janeiro, contudo interrompeu os estudos formais por rejeitar o academicismo e o ensino tradicional da instituição, optando por uma formação autodidata e experimental pautada nas ruas e na margem social.

 

Pontos de Destaque na Trajetória

Em 1969, Barrio redigiu o seu seminal Manifesto, no qual questionava o circuito mercantil da arte, criticava o esteticismo dos museus e propunha a utilização de materiais perecíveis, orgânicos e sem valor comercial. Nesse mesmo ano, criou as primeiras Trouxas Ensanguentadas (T.E.), amarrados de pano recheados com lixo, carne moída, ossos, urina e papel que eram abandonados anonimamente em vias públicas ou em cursos d'água.

Em abril de 1970, durante a ditadura militar (período do AI-5), executou a histórica intervenção Situação T.E./DE-E 0-5000 no Rio Ribeirão das Anhumas, em Belo Horizonte (MG), durante o evento Do Corpo à Terra (organizado pelo crítico Frederico Morais). Ao despachar 14 trouxas ensanguentadas no rio, provocou a ação imediata da polícia e da imprensa local, que confundiram a obra com restos mortais de vítimas do esquadrão da morte do regime — evidenciando a violência política invisibilizada no país.

Entre as décadas de 1970 e 1980, Barrio viveu e trabalhou temporariamente em Paris e Amsterdã, realizando ações e "Situações" itinerantes pela Europa. De volta ao Brasil, fixou-se no Rio de Janeiro e em Salvador, mantendo uma postura libertária e mantendo os "Cadernos de Anotações" (diários de bordo visuais) como registro de sua vivência estética e conceitual.

A poética de Artur Barrio pauta-se pelo conceito de "Situação" em detrimento do objeto de arte tradicional, substituindo a permanência da obra pela efemeridade e pelo impacto sensorial imediato.

 

Temas Recorrentes:

 

    • Violência, Corpo e Repressão: Denúncia da tortura, do desaparecimento de corpos e da marginalidade social através da manipulação de matéria orgânica.
    • Efemeridade e Desmaterialização: Recusa do fetiche do objeto comercializável e preservável, priorizando ações que se deterioram com o tempo.
    • A Relação entre Espaço Público e Instituição: Tensão deliberada entre a galeria/museu e a rua, desestabilizando a percepção do espectador por meio do cheiro, da podridão e do choque.
    • Registros e Diários de Bordo: O acúmulo de notas, desenhos, mapas, poemas e fotografias em cadernos pessoais como suporte complementar do pensamento poético.

 

Técnicas e Materiais:

    • Materiais Precarizados e Orgânicos: Carne, sangue bovino, ossos, lixo urbano, dejetos, peixe, pão, café, saliva, fios de cabelo e esponjas.
    • Instalações e Situações Site-Specific: Alteração temporária de salas de exposição com pó de café, carvão e pigmentos espalhados pelas paredes e pisos.
    • Cadernos de Anotações e Livros de Artista: Encadernações artesanais preenchidas com nanquim, colagens, carimbos e anotações reflexivas.

Exposições Selecionadas e Destaques na Trajetória

  • 1969: Salão da Bússola – Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ), Rio de Janeiro, RJ.
  • 1970: Do Corpo à Terra – Parque Municipal e Rio Ribeirão das Anhumas, Belo Horizonte, MG (Ação Situação T.E./DE-E 0-5000).
  • 1970: Information – Museum of Modern Art (MoMA), Nova York, EUA.
  • 1974: Situação... Registros... (Individual) – Galeria Cannaviello, Milão, Itália.
  • 1981: 16ª Bienal Internacional de São Paulo – Fundação Bienal, São Paulo, SP.
  • 1982: Documenta 7 – Kassel, Alemanha.
  • 1994: Bienal Brasil Século XX – Fundação Bienal de São Paulo, São Paulo, SP.
  • 1998: 24ª Bienal Internacional de São Paulo – Núcleo Histórico: Antropofagia e Histórias de Canibalismos, São Paulo, SP.
  • 2000: Artur Barrio: Ações Diretas (Individual Retrospectiva) – Paço Imperial, Rio de Janeiro, RJ.
  • 2002: Documenta 11 – Kassel, Alemanha (Curadoria de Okwui Enwezor).
  • 2004: Artur Barrio: Registros (Individual) – Palais de Tokyo, Paris, França.
  • 2005: 5ª Bienal do Mercosul – Porto Alegre, RS.
  • 2010: Artur Barrio: Experiências e Situações (Individual) – Museu de Arte Contemporânea de de Niterói (MAC-Niterói), Niterói, RJ.
  • 2011: 54ª Bienal Internacional de Arte de Veneza – Representante Oficial do Pavilhão do Brasil, Veneza, Itália.
  • 2012: Recebimento do Prêmio Velázquez de Artes Plásticas – Ministério da Cultura da Espanha, Madri, Espanha.
  • 2018: Artur Barrio: Delirium de Amoras (Individual) – Fundação Serralves, Porto, Portugal.
  • 2021: Artur Barrio: Intervenções e Experiências – Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo, SP.
  • 2024 / 2025: Desmaterializações da Matéria: Acervo Gilberto Chateaubriand – MAM/RJ, Rio de Janeiro, RJ.

 

Acervo Institucional e Presença em Coleções

Mesmo pautada na efemeridade, a produção (registros, cadernos, fotografias e instalações remontadas) de Artur Barrio integra os maiores acervos museológicos do mundo:

 

  • Museum of Modern Art (MoMA, Nova York, EUA)
  • Centre Pompidou (Paris, França)
  • Tate Modern (Londres, Reino Unido)
  • Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía (Madri, Espanha)
  • Fundação de Serralves (Porto, Portugal)
  • S.M.A.K. - Stedelijk Museum voor Actuele Kunst (Ghent, Bélgica)
  • Pinacoteca do Estado de São Paulo (São Paulo, SP)
  • Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP, São Paulo, SP)
  • Coleção Gilberto Chateaubriand / Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ, Rio de Janeiro)
  • Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC/USP, São Paulo, SP)

Obras de Artur Barrio

Cód. 1279AV

- Composição erótica "APBGSECTA", 1967

Desenho a grafite sobre papel
22 (A) x
30 (L) cm