Belém, PA, 1900 – Rio de Janeiro, RJ, 1934
Ismael Nery foi pintor, desenhista e poeta, considerado um dos nomes mais singulares do modernismo brasileiro e um dos pioneiros da aproximação com o surrealismo no país. Sua produção, marcada pela figura humana, pelo retrato e autorretrato, desenvolveu uma linguagem profundamente introspectiva, atravessada pelo cubismo, surrealismo, espiritualidade e pelo pensamento metafísico. Diferentemente de grande parte de seus contemporâneos modernistas, não se dedicou à construção de uma iconografia nacional, voltando-se para questões universais como identidade, corpo, dualidade, amor, morte e transcendência.
Ismael Nery nasceu em Belém do Pará, em 1900, e ainda criança mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, cidade onde desenvolveria praticamente toda a sua trajetória. Em 1918, ingressou na Escola Nacional de Belas Artes, onde teve contato com a formação acadêmica, embora sua inquietação artística logo o aproximasse das transformações que aconteciam na arte europeia.
Em 1920, viajou para Paris, frequentando a tradicional Académie Julian. A experiência europeia permitiu-lhe conhecer diretamente a produção moderna e as transformações provocadas pelas vanguardas do início do século XX. Após retornar ao Brasil, trabalhou como arquiteto-desenhista no Ministério da Fazenda e intensificou sua produção artística.
A partir dos anos 1920, sua obra passou por diferentes aproximações formais, inicialmente relacionadas ao expressionismo e ao cubismo. A decomposição da figura, a geometrização dos corpos e a multiplicação dos pontos de vista, entretanto, nunca constituíram para Nery apenas uma investigação formal. O corpo humano tornou-se o principal território para suas reflexões sobre existência e identidade.
Nesse período, desenvolveu também o chamado Essencialismo, sistema de pensamento de caráter filosófico e espiritual que procurava compreender o ser humano para além das circunstâncias de tempo e espaço. Essas ideias tiveram importante repercussão sobre seu amigo, o poeta Murilo Mendes, responsável posteriormente pela preservação e divulgação de parte significativa de seu pensamento e de sua poesia.
Ao contrário de muitos artistas ligados ao primeiro modernismo brasileiro, Nery não concentrou sua produção na representação de uma identidade nacional. Enquanto outros modernistas buscavam paisagens, personagens, costumes e símbolos brasileiros, Nery dirigia seu olhar para uma dimensão essencialmente interior e universal do homem. Essa posição contribuiu para que ocupasse um lugar muito particular dentro do modernismo brasileiro.
Em 1927, realizou uma segunda viagem à Europa. Em Paris, aproximou-se do ambiente surrealista, teve contato com André Breton e estabeleceu relação com Marc Chagall, frequentando seu ateliê. A experiência teve grande impacto sobre sua produção posterior.
A partir daí, sua pintura tornou-se progressivamente mais livre e imaginativa. Corpos se fundem, figuras masculinas e femininas se sobrepõem, personagens aparecem duplicados ou fragmentados e espaços reais convivem com situações impossíveis. O surrealismo encontrou em Nery um terreno particularmente fértil porque dialogava com questões que o artista já investigava: sonho, espiritualidade, desejo, identidade e transcendência.
A figura humana permaneceu no centro de sua produção. Retratos, autorretratos, nus, casais e figuras andróginas aparecem repetidamente. Em diversos trabalhos, as fronteiras entre masculino e feminino tornam-se instáveis, assim como a separação entre o artista e o outro. A própria esposa, a escritora e poeta Adalgisa Nery, foi uma de suas principais modelos. Em alguns retratos, características do próprio Ismael parecem se projetar sobre as pessoas representadas, produzindo imagens psicológicas e simbólicas.
Em vida, sua circulação artística foi relativamente restrita. Realizou uma exposição em Belém, em 1928, e, no ano seguinte, apresentou uma individual no Palace Hotel, no Rio de Janeiro. Em 1930, participou de uma exposição coletiva organizada pelo governo brasileiro no Roerich Museum, em Nova York. No ano seguinte integrou a histórica Exposição Geral de Belas Artes de 1931, conhecida como Salão Revolucionário, organizada durante a direção de Lúcio Costa na Escola Nacional de Belas Artes e considerada um marco da afirmação da arte moderna no Rio de Janeiro.
Sua trajetória seria, entretanto, dramaticamente curta. Diagnosticado com tuberculose no início da década de 1930, passou períodos internado e teve sua produção progressivamente afetada pela doença. Mesmo nesse contexto, continuou desenhando, pintando e escrevendo poemas e reflexões.
Ismael Nery morreu no Rio de Janeiro, em 1934, aos 33 anos. O reconhecimento mais amplo de sua importância ocorreu sobretudo após sua morte. Sua obra passou a ser recuperada pela crítica e pelas instituições brasileiras, revelando uma produção excepcionalmente particular dentro da primeira geração modernista.
Hoje, Nery é compreendido como um dos artistas que introduziram de maneira mais original questões ligadas ao surrealismo, à metafísica e à subjetividade na arte brasileira. Sua produção ocupa importantes coleções públicas brasileiras, entre elas o MAM Rio, o MASP, o MAC USP e a coleção do Banco Central do Brasil. O MASP, por exemplo, registra em seu acervo Perfil e alma, enquanto o MAM Rio conserva trabalhos provenientes, entre outros núcleos, da Coleção Gilberto Chateaubriand.
Sua obra permanece especialmente contemporânea pela maneira como questiona a estabilidade da identidade e do corpo. Masculino e feminino, matéria e espírito, indivíduo e outro, sensualidade e religiosidade aparecem como forças que não necessariamente se excluem, mas coexistem dentro de um mesmo ser. É justamente nessa investigação do homem — não como personagem social, mas como existência — que reside uma das maiores singularidades de Ismael Nery dentro da história da arte brasileira.
Fontes institucionais principais: MAM Rio, MASP, Banco Central do Brasil, Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo e Biblioteca Nacional.
A obra de Ismael Nery ocupa um lugar singular no modernismo brasileiro por deslocar o interesse da construção de uma identidade nacional para uma investigação profundamente subjetiva e universal. O corpo humano tornou-se seu principal território de experimentação: autorretratos, nus, casais e figuras andróginas revelam identidades instáveis, nas quais masculino e feminino, matéria e espírito, indivíduo e outro frequentemente se confundem. Apropriando-se livremente do cubismo e, posteriormente, do surrealismo, Nery desenvolveu uma linguagem própria, ligada ao Essencialismo e às suas reflexões sobre amor, desejo, espiritualidade, vida e morte. Sua produção em pintura, desenho e aquarela, realizada em uma trajetória excepcionalmente curta, constitui uma das experiências mais originais da arte moderna brasileira.
CURRÍCULO | EXPOSIÇÕES SELECIONADAS
1928 — Exposição individual, Belém, PA.
1929 — Exposição individual, Palace Hotel, Rio de Janeiro, RJ.
1930 — Exposição de artistas brasileiros, Roerich Museum, Nova York, Estados Unidos.
1931 — XXXVIII Exposição Geral de Belas Artes — Salão Revolucionário, Escola Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ.
1965 — 8ª Bienal Internacional de São Paulo, Fundação Bienal de São Paulo, São Paulo, SP — Sala Especial Ismael Nery.
1975 — Pintura Brasileira Contemporânea – 2ª Fase: 1917 a 1930 – O Modernismo, MAC USP, São Paulo, SP.
1985 — Do Modernismo aos Anos 40: Desenhos, MAC USP, São Paulo, SP.
1985 — Aproximações com o Surrealismo, MAC USP, São Paulo, SP.
1987–1988 — Modernidade – Art Brésilien du 20e Siècle, Paris, França.
1989 — Ismael Nery, MAC USP, São Paulo, SP.
1993–1994 — Arte Moderna – Vanguarda, Derivações e Refluxos segundo o Acervo do MAC, MAC USP, São Paulo, SP.
1995 — Modernismo Paris Anos 20: Vivências e Convivências, MAC USP, São Paulo, SP.
1996–1998 — Arte Brasileira: 50 Anos de História no Acervo MAC USP 1920–1970, MAC USP, São Paulo, SP.
1999 — O Brasil no Século da Arte: A Coleção MAC USP, MAC USP, São Paulo, SP.
2000 — Ismael Nery: 100 Anos – A Poética de um Mito, exposição comemorativa do centenário de nascimento do artista. O registro do MAC USP confirma duas etapas da mostra, entre junho e setembro de 2000.
2002–2003 — 22 e a Ideia do Moderno, MAC USP, São Paulo, SP.
2007 — Arte Moderna – Brasil, MAC USP, São Paulo, SP.
2008–2009 — Arte Brasileira no Acervo MAC USP, MAC USP, São Paulo, SP.
2009 — França/Brasil: Intercâmbio de Ideias, MAC USP, São Paulo, SP.
2011–2012 — Modernismos no Brasil, MAC USP, São Paulo, SP.
2013–2015 — o AGORA, o ANTES: uma síntese do acervo do MAC, MAC USP, São Paulo, SP.
2016–2022 — Visões da Arte no Acervo do MAC USP: 1900–1950, MAC USP, São Paulo, SP.
2017 — Mário Pedrosa: de la naturaleza afectiva de la forma, Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Madri, Espanha / MAC USP, São Paulo. Obras de Nery integraram o projeto.
2018 — Ismael Nery: Feminino e Masculino, MAC USP, São Paulo, SP.
2019–2022 — Memorial do Desenho, MAC USP, São Paulo, SP.
2023–2028 — Tempos Fraturados, MAC USP, São Paulo, SP.
2025 - Ismael Nery: crônica e sonho”, com curadoria de Tadeu Chiarelli - Danielian Galeria
2025–2026 — Corpos explícitos, corpos ocultos, MAC USP, São Paulo, SP.
Obras de Ismael Nery integram importantes coleções públicas e institucionais brasileiras, com destaque para Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP), Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio) e Banco Central do Brasil, entre outras.
O MAC USP é especialmente importante para o estudo do artista, conservando pinturas, aquarelas e numerosos desenhos, como Figura (c. 1927–1928), Nu, Autorretrato, Composição, Composição Surrealista I e outros trabalhos.