Ismael Nery - TNT Arte
Belém / PA
09/10/1900
06/04/1934
(Cód.: AF14644)
Figuras no Cais
Grafite sobre papel
canto inferior direito
15 x (L) cm
10.5 (A) x
Categoria(s): Desenho

Ismael Nery nasceu em Belém do Pará, em 1900, e ainda criança mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, cidade onde desenvolveria praticamente toda a sua trajetória. Em 1918, ingressou na Escola Nacional de Belas Artes, onde teve contato com a formação acadêmica, embora sua inquietação artística logo o aproximasse das transformações que aconteciam na arte europeia.

Em 1920, viajou para Paris, frequentando a tradicional Académie Julian. A experiência europeia permitiu-lhe conhecer diretamente a produção moderna e as transformações provocadas pelas vanguardas do início do século XX. Após retornar ao Brasil, trabalhou como arquiteto-desenhista no Ministério da Fazenda e intensificou sua produção artística.

A partir dos anos 1920, sua obra passou por diferentes aproximações formais, inicialmente relacionadas ao expressionismo e ao cubismo. A decomposição da figura, a geometrização dos corpos e a multiplicação dos pontos de vista, entretanto, nunca constituíram para Nery apenas uma investigação formal. O corpo humano tornou-se o principal território para suas reflexões sobre existência e identidade.

Nesse período, desenvolveu também o chamado Essencialismo, sistema de pensamento de caráter filosófico e espiritual que procurava compreender o ser humano para além das circunstâncias de tempo e espaço. Essas ideias tiveram importante repercussão sobre seu amigo, o poeta Murilo Mendes, responsável posteriormente pela preservação e divulgação de parte significativa de seu pensamento e de sua poesia.

Ao contrário de muitos artistas ligados ao primeiro modernismo brasileiro, Nery não concentrou sua produção na representação de uma identidade nacional. Enquanto outros modernistas buscavam paisagens, personagens, costumes e símbolos brasileiros, Nery dirigia seu olhar para uma dimensão essencialmente interior e universal do homem. Essa posição contribuiu para que ocupasse um lugar muito particular dentro do modernismo brasileiro.

Em 1927, realizou uma segunda viagem à Europa. Em Paris, aproximou-se do ambiente surrealista, teve contato com André Breton e estabeleceu relação com Marc Chagall, frequentando seu ateliê. A experiência teve grande impacto sobre sua produção posterior.

A partir daí, sua pintura tornou-se progressivamente mais livre e imaginativa. Corpos se fundem, figuras masculinas e femininas se sobrepõem, personagens aparecem duplicados ou fragmentados e espaços reais convivem com situações impossíveis. O surrealismo encontrou em Nery um terreno particularmente fértil porque dialogava com questões que o artista já investigava: sonho, espiritualidade, desejo, identidade e transcendência.

A figura humana permaneceu no centro de sua produção. Retratos, autorretratos, nus, casais e figuras andróginas aparecem repetidamente. Em diversos trabalhos, as fronteiras entre masculino e feminino tornam-se instáveis, assim como a separação entre o artista e o outro. A própria esposa, a escritora e poeta Adalgisa Nery, foi uma de suas principais modelos. Em alguns retratos, características do próprio Ismael parecem se projetar sobre as pessoas representadas, produzindo imagens psicológicas e simbólicas.

Em vida, sua circulação artística foi relativamente restrita. Realizou uma exposição em Belém, em 1928, e, no ano seguinte, apresentou uma individual no Palace Hotel, no Rio de Janeiro. Em 1930, participou de uma exposição coletiva organizada pelo governo brasileiro no Roerich Museum, em Nova York. No ano seguinte integrou a histórica Exposição Geral de Belas Artes de 1931, conhecida como Salão Revolucionário, organizada durante a direção de Lúcio Costa na Escola Nacional de Belas Artes e considerada um marco da afirmação da arte moderna no Rio de Janeiro.

Sua trajetória seria, entretanto, dramaticamente curta. Diagnosticado com tuberculose no início da década de 1930, passou períodos internado e teve sua produção progressivamente afetada pela doença. Mesmo nesse contexto, continuou desenhando, pintando e escrevendo poemas e reflexões.

Ismael Nery morreu no Rio de Janeiro, em 1934, aos 33 anos. O reconhecimento mais amplo de sua importância ocorreu sobretudo após sua morte. Sua obra passou a ser recuperada pela crítica e pelas instituições brasileiras, revelando uma produção excepcionalmente particular dentro da primeira geração modernista.

Hoje, Nery é compreendido como um dos artistas que introduziram de maneira mais original questões ligadas ao surrealismo, à metafísica e à subjetividade na arte brasileira. Sua produção ocupa importantes coleções públicas brasileiras, entre elas o MAM Rio, o MASP, o MAC USP e a coleção do Banco Central do Brasil. O MASP, por exemplo, registra em seu acervo Perfil e alma, enquanto o MAM Rio conserva trabalhos provenientes, entre outros núcleos, da Coleção Gilberto Chateaubriand.

Sua obra permanece especialmente contemporânea pela maneira como questiona a estabilidade da identidade e do corpo. Masculino e feminino, matéria e espírito, indivíduo e outro, sensualidade e religiosidade aparecem como forças que não necessariamente se excluem, mas coexistem dentro de um mesmo ser. É justamente nessa investigação do homem — não como personagem social, mas como existência — que reside uma das maiores singularidades de Ismael Nery dentro da história da arte brasileira.

Fontes institucionais principais: MAM Rio, MASP, Banco Central do Brasil, Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo e Biblioteca Nacional.

Síntese da produção

A obra de Ismael Nery ocupa um lugar singular no modernismo brasileiro por deslocar o interesse da construção de uma identidade nacional para uma investigação profundamente subjetiva e universal. O corpo humano tornou-se seu principal território de experimentação: autorretratos, nus, casais e figuras andróginas revelam identidades instáveis, nas quais masculino e feminino, matéria e espírito, indivíduo e outro frequentemente se confundem. Apropriando-se livremente do cubismo e, posteriormente, do surrealismo, Nery desenvolveu uma linguagem própria, ligada ao Essencialismo e às suas reflexões sobre amor, desejo, espiritualidade, vida e morte. Sua produção em pintura, desenho e aquarela, realizada em uma trajetória excepcionalmente curta, constitui uma das experiências mais originais da arte moderna brasileira.

PRODUÇÃO ARTÍSTICA

  • A figura humana como centro da obra — A produção de Ismael Nery concentra-se sobretudo no corpo humano. Retratos, autorretratos, nus, casais e figuras imaginárias são recorrentes. Mais do que representar indivíduos, o artista utiliza o corpo para investigar identidade, existência, desejo e espiritualidade.
  • Autorretrato e identidade — O autorretrato ocupa posição importante em sua produção. Nery frequentemente utiliza a própria imagem como campo de experimentação, modificando, duplicando ou fundindo seus traços com os de outras figuras. A identidade deixa de ser fixa e passa a aparecer como algo mutável. O MAC USP conserva, inclusive, diferentes trabalhos relacionados a esse núcleo.
  • Adalgisa Nery e os retratos — Sua esposa, Adalgisa Nery, foi uma de suas principais modelos. Entretanto, seus retratos raramente se limitam à semelhança física: o artista transforma a figura retratada em construção psicológica e simbólica, por vezes aproximando seus próprios traços dos dela.
  • Masculino e feminino — Uma das questões mais fascinantes de sua obra é a aproximação entre os gêneros. Corpos masculinos e femininos se fundem, compartilham características ou aparecem de maneira ambígua e andrógina. A importância desse aspecto foi reconhecida pelo próprio MAC USP, que realizou, em 2018, a exposição Ismael Nery: feminino e masculino.
  • Casais e corpos fundidos — Nery produziu inúmeras composições com duas figuras. Os corpos se aproximam, se sobrepõem ou parecem formar uma única unidade. O casal torna-se uma maneira de refletir sobre amor, sexualidade, complementaridade e a relação entre o indivíduo e o outro.
  • Nus — O nu aparece repetidamente em pinturas, aquarelas e desenhos. O corpo não é tratado apenas como estudo anatômico ou representação sensual, mas como instrumento para pensar a própria condição humana. O MAC USP possui exemplos importantes desse núcleo, inclusive aquarelas sobre papel.
  • Cubismo — O contato com as vanguardas europeias levou Nery a incorporar procedimentos cubistas, especialmente a geometrização, a simplificação dos volumes e a fragmentação das figuras. Entretanto, ele nunca se tornou um cubista ortodoxo: apropriou-se desses recursos para construir sua linguagem pessoal.
  • Surrealismo — A partir da segunda metade da década de 1920, sua obra aproxima-se fortemente do universo surrealista. Surgem figuras impossíveis, corpos transformados, situações oníricas, associações inesperadas e espaços que não obedecem à realidade. O MAC USP conserva obras explicitamente identificadas como composições surrealistas.
  • Sonho e imaginação — Em vez da observação direta do mundo exterior, Nery frequentemente constrói imagens mentais. Seus desenhos podem assumir uma atmosfera de sonho, na qual anatomia, escala, espaço e lógica são livremente transformados.
  • Essencialismo — Sua produção está diretamente relacionada ao pensamento filosófico que desenvolveu e denominou Essencialismo. Nery buscava superar as limitações de tempo e espaço para alcançar aquilo que considerava essencial e universal no ser humano. Essa concepção ajuda a compreender por que sua pintura se distancia da preocupação nacionalista presente em boa parte do modernismo brasileiro.
  • Espiritualidade e metafísica — Católico e profundamente interessado em questões espirituais, Nery aproxima corpo e espírito, matéria e transcendência. Sua pintura não é religiosa apenas pela eventual presença de referências cristãs: a própria existência humana é tratada como questão metafísica.
  • Vida, doença e morte — Com o avanço da tuberculose, a consciência da fragilidade física e da morte torna-se ainda mais presente em sua produção e em seus escritos. Corpo, sofrimento, espiritualidade e transcendência passam a adquirir uma dimensão particularmente intensa.
  • Desenho como linguagem fundamental — Embora seja conhecido como pintor, Ismael Nery foi um desenhista extraordinariamente prolífico. Trabalhou com grafite, nanquim, crayon e aquarela sobre papel, frequentemente com grande liberdade experimental. O conjunto preservado pelo MAC USP demonstra a variedade dessas técnicas.
  • Poesia e pensamento — Sua criação não se restringiu às artes visuais. Nery escreveu poemas e reflexões filosóficas, estabelecendo uma relação contínua entre palavra, imagem, espiritualidade e investigação existencial.

Síntese da produção

A obra de Ismael Nery ocupa um lugar singular no modernismo brasileiro por deslocar o interesse da construção de uma identidade nacional para uma investigação profundamente subjetiva e universal. O corpo humano tornou-se seu principal território de experimentação: autorretratos, nus, casais e figuras andróginas revelam identidades instáveis, nas quais masculino e feminino, matéria e espírito, indivíduo e outro frequentemente se confundem. Apropriando-se livremente do cubismo e, posteriormente, do surrealismo, Nery desenvolveu uma linguagem própria, ligada ao Essencialismo e às suas reflexões sobre amor, desejo, espiritualidade, vida e morte. Sua produção em pintura, desenho e aquarela, realizada em uma trajetória excepcionalmente curta, constitui uma das experiências mais originais da arte moderna brasileira.

PRODUÇÃO ARTÍSTICA

  • A figura humana como centro da obra — A produção de Ismael Nery concentra-se sobretudo no corpo humano. Retratos, autorretratos, nus, casais e figuras imaginárias são recorrentes. Mais do que representar indivíduos, o artista utiliza o corpo para investigar identidade, existência, desejo e espiritualidade.
  • Autorretrato e identidade — O autorretrato ocupa posição importante em sua produção. Nery frequentemente utiliza a própria imagem como campo de experimentação, modificando, duplicando ou fundindo seus traços com os de outras figuras. A identidade deixa de ser fixa e passa a aparecer como algo mutável. O MAC USP conserva, inclusive, diferentes trabalhos relacionados a esse núcleo.
  • Adalgisa Nery e os retratos — Sua esposa, Adalgisa Nery, foi uma de suas principais modelos. Entretanto, seus retratos raramente se limitam à semelhança física: o artista transforma a figura retratada em construção psicológica e simbólica, por vezes aproximando seus próprios traços dos dela.
  • Masculino e feminino — Uma das questões mais fascinantes de sua obra é a aproximação entre os gêneros. Corpos masculinos e femininos se fundem, compartilham características ou aparecem de maneira ambígua e andrógina. A importância desse aspecto foi reconhecida pelo próprio MAC USP, que realizou, em 2018, a exposição Ismael Nery: feminino e masculino.
  • Casais e corpos fundidos — Nery produziu inúmeras composições com duas figuras. Os corpos se aproximam, se sobrepõem ou parecem formar uma única unidade. O casal torna-se uma maneira de refletir sobre amor, sexualidade, complementaridade e a relação entre o indivíduo e o outro.
  • Nus — O nu aparece repetidamente em pinturas, aquarelas e desenhos. O corpo não é tratado apenas como estudo anatômico ou representação sensual, mas como instrumento para pensar a própria condição humana. O MAC USP possui exemplos importantes desse núcleo, inclusive aquarelas sobre papel.
  • Cubismo — O contato com as vanguardas europeias levou Nery a incorporar procedimentos cubistas, especialmente a geometrização, a simplificação dos volumes e a fragmentação das figuras. Entretanto, ele nunca se tornou um cubista ortodoxo: apropriou-se desses recursos para construir sua linguagem pessoal.
  • Surrealismo — A partir da segunda metade da década de 1920, sua obra aproxima-se fortemente do universo surrealista. Surgem figuras impossíveis, corpos transformados, situações oníricas, associações inesperadas e espaços que não obedecem à realidade. O MAC USP conserva obras explicitamente identificadas como composições surrealistas.
  • Sonho e imaginação — Em vez da observação direta do mundo exterior, Nery frequentemente constrói imagens mentais. Seus desenhos podem assumir uma atmosfera de sonho, na qual anatomia, escala, espaço e lógica são livremente transformados.
  • Essencialismo — Sua produção está diretamente relacionada ao pensamento filosófico que desenvolveu e denominou Essencialismo. Nery buscava superar as limitações de tempo e espaço para alcançar aquilo que considerava essencial e universal no ser humano. Essa concepção ajuda a compreender por que sua pintura se distancia da preocupação nacionalista presente em boa parte do modernismo brasileiro.
  • Espiritualidade e metafísica — Católico e profundamente interessado em questões espirituais, Nery aproxima corpo e espírito, matéria e transcendência. Sua pintura não é religiosa apenas pela eventual presença de referências cristãs: a própria existência humana é tratada como questão metafísica.
  • Vida, doença e morte — Com o avanço da tuberculose, a consciência da fragilidade física e da morte torna-se ainda mais presente em sua produção e em seus escritos. Corpo, sofrimento, espiritualidade e transcendência passam a adquirir uma dimensão particularmente intensa.
  • Desenho como linguagem fundamental — Embora seja conhecido como pintor, Ismael Nery foi um desenhista extraordinariamente prolífico. Trabalhou com grafite, nanquim, crayon e aquarela sobre papel, frequentemente com grande liberdade experimental. O conjunto preservado pelo MAC USP demonstra a variedade dessas técnicas.
  • Poesia e pensamento — Sua criação não se restringiu às artes visuais. Nery escreveu poemas e reflexões filosóficas, estabelecendo uma relação contínua entre palavra, imagem, espiritualidade e investigação existencial.
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